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Erros, uma das etapas mais importantes do aprendizado linguístico

Uma das coisas mais comuns quando se trata de aprender uma língua é o medo de errar e a insegurança que este novo desafio apresenta. É preciso que o aluno entenda que os erros na verdade são uma parte essencial do processo de aprendizado. Primeiro porque, se arriscar na língua e não ter medo de perguntar faz você perder a insegurança com relação ao inglês ou outra língua que você esteja aprendendo. Segundo porque este erro pode ajudar o professor ou o monitor a descobrir o que precisa ser trabalhado e a auxiliar o aluno a descobrir o que ele precisa estudar mais ou prestar mais atenção na hora de falar uma língua.

Durante décadas, esses desvios, comumente denominados "erros", foram vistos sob uma ótica negativa, como falhas a serem extirpadas, sinais de deficiência no processo de ensino ou de incapacidade do aprendiz. No entanto, a partir de uma perspectiva teórica contemporânea, notadamente sob a influência da Linguística Aplicada e da Análise de Erros, o erro é ressignificado. Deixa de ser um mero lapso ou fracasso, transformando-se em um elemento constitutivo e, mais que isso, uma das etapas mais importantes do caminho rumo à competência linguística. Sendo assim, hoje é mais fácil entendermos que o processo de aquisição e aprendizagem de uma língua – materna ou estrangeira – é invariavelmente permeado por desvios em relação à norma padrão.

Essa mudança paradigmática tem suas raízes na obra seminal de Pit Corder, “The Significance of Learner's Errors” (1967). Corder propôs que os erros não são apenas acidentes, mas janelas para a mente do aprendiz. Eles são evidências palpáveis do sistema linguístico em construção – uma interlíngua – que é sistemática, dinâmica e regida por suas próprias regras. Ao cometer um erro como "eu fazi" (no lugar de "eu fiz") ou "she goed" (no lugar de "she went"), o aprendiz não está produzindo um absurdo aleatório. Está, na verdade, aplicando lógicas internas, como a supergeneralização de regras regulares (aplicação do padrão de formação de passado regular a verbos irregulares), demonstrando um processo ativo de hipótese e teste sobre o funcionamento da língua-alvo.

Dessa forma, o erro assume um papel diagnóstico crucial. Para o professor, a análise sistemática dos erros oferece um mapa valioso do estágio de desenvolvimento em que o aluno se encontra, revelando quais hipóteses ele já formulou, quais regras internalizou e, principalmente, quais aspectos da língua ainda são problemáticos para seu sistema interlinguístico. Isso permite uma intervenção pedagógica muito mais focada e eficaz, deslocando o ensino de uma correção punitiva e indiscriminada para uma prática reflexiva que atende às reais necessidades do aprendiz.

Para o próprio aprendiz, o erro tem uma função heurística, ou seja, de descoberta. O processo de tentativa, erro, feedback (seja de um interlocutor, seja da auto-observação) e reformulação é o motor central da aprendizagem. É através do equívoco que se testam os limites do conhecimento, que se percebem as lacunas e que se refinam as regras. Um erro corrigido de maneira construtiva – e não apenas marcado como incorreto – fixa-se na memória de forma muito mais duradoura do que uma forma apresentada sem contexto. O erro, portanto, é um sinal de que o aprendizado está em andamento, de que o aprendiz está se arriscando e saindo da zona de conforto de estruturas já consolidadas.

É importante distinguir, contudo, erros de desenvolvimento de fossilizações ou lapsos. Os primeiros, como os exemplos citados, são naturais e transitórios, próprios do processo de construção da interlíngua. Já as fossilizações são erros que persistem de forma crônica, mesmo em níveis avançados de proficiência, e os lapsos são deslizes de performance, não refletindo um desconhecimento da regra. O foco da valorização recai sobre os erros de desenvolvimento, pois são eles que marcam o progresso.

Em conclusão, relegar o erro a uma categoria de vergonha ou fracasso é negar a natureza mesma da aprendizagem, que é essencialmente um processo não-linear, hipotético e reconstrutivo. Ao integrar o erro como uma ferramenta legítima e informativa no processo de ensino-aprendizagem, professores e alunos podem adotar uma postura mais positiva, resiliente e cientificamente embasada. Longe de serem obstáculos, os erros são, na verdade, marcos reveladores do caminho percorrido e indicadores precisos do rumo a seguir.

Reconhecê-los como uma das etapas mais importantes do aprendizado linguístico não é promover a incorreção, mas sim compreender e respeitar a complexidade do ato de aprender uma língua.


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